Regulação
Lei 14.300 em 2026: Fio B a 60% e o que muda no orçamento solar
O Fio B chegou a 60% em 2026. Entenda a Lei 14.300, o impacto no payback da energia solar e como a integradora deve montar o orçamento sem errar o cálculo.
Equipe Sanvello··9 min de leitura
Em 2026 o Fio B da geração distribuída chegou a 60%. Para a integradora, isso não é um detalhe regulatório. É o número que decide se o orçamento fecha ou se o cliente volta dizendo que a economia prometida não apareceu na conta.
Este texto explica, em linguagem de operação, o que a Lei 14.300/2022 mudou, qual percentual vale agora, quem ainda está isento e como montar a proposta sem inflar o payback.
- Fio B em 2026
- 60%
- Próximo degrau
- 75%
- GD I isento até
- 2045
Sobre a energia compensada, GD II
Vale em 2027 se a conexão atrasar
Protocolo até 6 jan 2023
O que é a Lei 14.300
A Lei 14.300 é o Marco Legal da Geração Distribuída. Ela tirou o sistema de compensação do terreno instável das resoluções da ANEEL e colocou as regras em lei federal.
Na prática, três coisas importam no balcão de vendas:
- Quem gera e consome no mesmo instante não paga Fio B sobre essa energia. Autoconsumo instantâneo continua sendo o melhor kWh do projeto.
- Quem injeta na rede e compensa depois passa a pagar uma fatia da TUSD Fio B, o pedágio pelo uso do fio da distribuidora.
- O percentual sobe todo ano até 2028. Em 2029 entra a metodologia definitiva da ANEEL, ainda em discussão.
Antes da lei, 1 kWh injetado valia 1 kWh de crédito (net metering cheio). Depois dela, o crédito do sistema novo vale menos. A diferença é o Fio B.
Cronograma do Fio B até 2028
A escala está no artigo 27 da lei. O percentual incide sobre a parcela Fio B da tarifa, somente na energia compensada:
- 202315%
- 202430%
- 202545%
- 202660% · agora
- 202775%
- 202890%
Percentual do artigo 27 da Lei 14.300. Em 2029 a ANEEL define a valoração seguinte.
| Ano | Fio B cobrado na energia compensada |
|---|---|
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 | 60% |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| 2029 em diante | regra de valoração da ANEEL |
Em 2026, portanto, 60% do Fio B deixa de ser compensado. Os outros componentes da tarifa (energia, encargos, demais parcelas da TUSD) continuam entrando no crédito, conforme o enquadramento do sistema.
O Canal Solar calculou um exemplo útil: em 1.000 kWh compensados, com Fio B na casa de R$ 0,20/kWh, o cliente deixa de receber cerca de R$ 124 só por causa dos 60%. Multiplique isso por 12 meses e o payback se move. Não é o fim do negócio. É o fim do orçamento genérico.
Quem ainda está isento (GD I)
Nem todo mundo paga essa escada.
Pelo artigo 26, unidades que já existiam na publicação da lei ou que protocolaram o pedido de acesso até 6 de janeiro de 2023 seguem no regime antigo até 31 de dezembro de 2045. Esse grupo costuma ser chamado de GD I: compensação cheia, sem o Fio B progressivo.
Sistemas protocolados a partir de 7 de janeiro de 2023 entram na GD II e acompanham a tabela acima. Em 2026, a maioria das vendas novas está nesse grupo.
Há ainda regras específicas para minigeração de maior porte, autoconsumo remoto e geração compartilhada (o que o mercado chama de GD III). Se o projeto passa de 500 kW ou muda o titular da compensação, não use a mesma conta do residencial de 5 kWp.
O que o Fio B não muda
Três mitos ainda circulam no WhatsApp da equipe comercial. Vale cravar:
- Não é um imposto novo sobre o sol. É a cobrança pelo uso da rede quando a energia sobe e desce o fio. Energia gerada e usada na hora não entra nessa conta.
- A lei não matou o payback. A conta de luz segue alta, a ANEEL projeta reajuste médio da ordem de 8,6% em 2026, e o kWh da concessionária continua mais caro do que o kWh gerado no telhado. O que mudou é a margem de erro do vendedor.
- O cronograma até 2028 está na lei. Mudar 60% para outro número exigiria novo processo legislativo. O ponto em aberto é 2029: a ANEEL ainda discute a valoração definitiva (houve tomada de subsídios no fim de 2025, com consulta prevista para 2026).
Como o Fio B entra no orçamento
Um orçamento honesto em 2026 precisa de quatro entradas. Sem elas, o payback é chute.
1. Consumo e perfil, não só a média mensal
Dois clientes com 800 kWh/mês podem ter paybacks bem diferentes. Quem consome de dia (comércio, irrigação, residência com ar-condicionado no horário de sol) autoconsome mais e sente menos o Fio B. Quem só usa energia à noite injeta quase tudo e paga o pedágio cheio.
Peça a fatura, a classe tarifária e o horário de uso. Não feche só com “média de 12 meses”.
2. Concessionária, grupo e ano da tarifa
O Fio B não é um valor nacional. Ele mora dentro da TUSD da distribuidora. Coelba, Cemig, Enel e Equatorial têm números diferentes. O ano da tarifa também muda o resultado.
Se a calculadora da empresa não puxa concessionária e grupo (B1, B3, A4), o comercial está vendendo um Brasil médio que não existe.
3. Percentual do ano de conexão, não do ano da visita
O cliente assina em setembro de 2026 e a usina só injeta em março de 2027? O primeiro ano cheio de operação já encontra Fio B a 75%. Mostre os dois cenários: o do protocolo e o do primeiro ano de geração. Transparência aqui evita processo depois.
4. Autoconsumo versus injeção
A regra de ouro do pós-14.300: dimensionar para o consumo diurno, não para zerar a conta no papel. Sistema superdimensionado injeta mais, paga mais Fio B e alonga o retorno. Em 2026, usina “para vender crédito” ficou pior negócio do que usina “para consumir no local”.
Exemplo simples de conversa com o cliente
Suponha um residencial em baixa tensão, 600 kWh/mês, sistema novo (GD II), boa irradiação e cerca de 40% de autoconsumo instantâneo.
- Os 40% gerados e usados na hora continuam valendo a tarifa cheia.
- Os 60% injetados voltam como crédito, menos 60% do Fio B em 2026.
- A economia mensal cai em relação ao discurso de 2022, mas ainda cobre o financiamento na maior parte das praças.
O número exato depende da tarifa local. O que não pode acontecer é o vendedor repetir o slide de “economia de 95%” que a equipe usava antes da lei.
Uma forma limpa de falar: “Você continua gerando a sua energia. O que mudou é o pedágio da rede quando a usina injeta. Por isso o projeto certo é o que casa geração com o seu horário de consumo.”
O que a integradora precisa mudar na operação
Regulação ruim não se resolve só com planilha nova. Ela aparece no quadro, na documentação e no financeiro.
Comercial. Toda proposta GD II precisa nascer com Fio B do ano e da concessionária. Sem isso, o aceite vira bomba-relógio. Vale ter um campo explícito no PDF: percentual usado, concessionária e premissa de autoconsumo.
Engenharia e homologação. O regime (GD I, II ou III) depende da data do protocolo de acesso, não da data da venda. Se o vendedor prometeu regra antiga e o parecer saiu depois do corte, o cliente vai cobrar a diferença de vocês. O pedido de acesso, o parecer e o ponto de conexão precisam ficar no mesmo projeto, com prazo visível.
Instalação e estoque. Atraso de material empurra a conexão para o ano seguinte e piora o Fio B do cliente. Isso é custo de reputação, não só de obra.
Pós-venda. Mostre a primeira conta homologada lado a lado com a premissa do orçamento. Quem explica o Fio B depois da fatura chega tarde.
Checklist para o orçamento de 2026
Use esta lista antes de mandar a proposta:
- Fatura recente, com concessionária, grupo e classe.
- Perfil de consumo (diurno, noturno, irrigação, comercial).
- Data prevista do protocolo de acesso e do primeiro kWh injetado.
- Percentual de Fio B do ano de conexão (60% em 2026, 75% se escorregar para 2027).
- Premissa de autoconsumo instantâneo escrita no PDF.
- Tipo de sistema: On-Grid, híbrido ou bombeamento. Híbrido muda o desenho porque parte da energia nem chega na rede.
- Documentos da etapa: contrato, procurações, ART, unifilar. Homologação lenta também empurra o Fio B.
FAQ rápido para o time e para o Google
Energia solar ainda vale a pena em 2026?
Sim, na maior parte dos casos. O Fio B reduz parte do crédito injetado, mas não zera a economia. Quem tem tarifa alta e consumo diurno continua com payback competitivo. O que deixou de valer é o discurso de “conta zerada para sempre”.
O Fio B incide sobre toda a geração?
Não. Incide sobre a energia injetada e depois compensada. O autoconsumo instantâneo fica de fora.
Meu cliente protocolou em 2022. Ele paga os 60%?
Se o pedido de acesso entrou até 6 de janeiro de 2023 e o sistema se enquadra no artigo 26, a regra antiga vale até 2045. Confirme no parecer e no histórico da distribuidora. Não assuma pelo ano da instalação.
E depois de 2028?
A lei manda a ANEEL definir a valoração a partir de 2029. Até a metodologia sair, o comercial deve mostrar o cronograma conhecido e marcar 2029 como premissa em aberto. Não invente 100% de Fio B se a regra ainda não foi publicada.
Como a Sanvello entra nisso?
A calculadora On-Grid da Sanvello já considera Lei 14.300, Fio B, concessionária e ano de cobrança. O resultado vira orçamento. O quadro de projetos guarda o protocolo, os documentos da homologação e o prazo de cada etapa, para a conexão não escorregar de ano sem ninguém ver.
Fontes e leitura oficial
- Lei nº 14.300, de 6 de janeiro de 2022 (Planalto)
- ANEEL, geração distribuída
- Cobertura de 2026 sobre o patamar de 60%: Canal Solar
Este artigo é informativo e não substitui o parecer da distribuidora nem a análise de um responsável técnico. Regras de minigeração, autoconsumo remoto e geração compartilhada pedem leitura da REN 1.059/2023 e do parecer de acesso do projeto.
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